Ele era um moço requintado, alto, bonito e educado. Um bom partido que arrasava corações de moças faceiras e dispostas a noivar-se.
Ela, doçura de menina. Seus olhos verdes transmitiam carisma. Filha de um grande e humano médico que soube criar uma menina educada e muito bonita. Quando pequenina, morou na serra gaúcha, na cidade de Bento Gonçalves, onde seu pai ajudara a construir um hospital.
Duas vidas, duas biografias que estão por se cruzar sob olhar da história.
Era Porto Alegre, meados da década de 40 à beira de uma praia doce, de ondas serenas, que chamara Pedras Brancas. Um fim de tarde, um pôr-do-sol, um céu de um azul intenso que acabava por resplandecer novas cores, alaranjadas. O sol rompia as nuvens e os pequenos brilhos que cintilavam sobre as águas eram foguinhos acendendo e apagando. Todos os os fins de tardinhas, Ele sentava-se lá, com seu cachorro Sultão. De vez em quando, sentia-se feliz, com uma felicidade que chegava-lhe e subitamente fugia. Era uma alegria séria, mas que surpreendia-lhe com uma serena vontade de sorrir, algo que fazia acreditar que havia mais alguma outra coisa, para aliviar o seu vazio, ou aquela estranha falta.
Todas as manhãzinhas frias e ensolaradas, Ela observava a praia de sua janela, às vezes, garoava, a ponto de enxergar quase nada, outras vezes, o sol pintava o céu com sua graça, esquentando a manhãzinha fria. Encantava o nascer do sol, que faiscava sem parar, reluzente sobre as águas. Aquela luz refletia em seus doces olhos verdes que perdiam-se em sonhos, em uma esperança boa, que não sabia de quê, só sabia que sentia. Da Janela ela pensava em sua vida, observava o rio, sentia-se boba de tanta sensibilidade, não que estivesse triste, só não compreendia o que estava sentindo. Maria Jaci gostava de silêncio, tinha consigo que por vezes o silêncio e a solitude eram o melhor, pois podia se sentir e compreender.
Naquele morro, bem verde, Ele sentara com seu cachorro todos os fins de tardinhas, onde o sol se perdia dentre os morros do outro lado do rio, onde mal podia-se enxergar a pequena cidade que Ele tanto admirava, pois, lá morava um tio que sempre o contava sobre os cantos dos canarinhos, sabiás e outros pássaros encantadores que lá residiam, nas gigantes e antigas árvores, tornando o ambiente com seus cantos uma alegria só. Ao entardecer, Ele e Sultão sentavam lá e refletiam. Todos os dias Ele olhava ao horizonte onde enxergara Guaíba e dizia:
- É Sultão, ainda vou morar naquela cidade onde existem sabiás. Preciso ir lá, sim eu vou.
Ele via-se ansioso, pois estava prestes a visitar seu tio, que morava do outro lado do rio.
Era uma manhã fria e cinzenta de outono. Ventava, a ponto de ouvir-se um certo "ssshii" das antigas árvores que balançavam. A praia aparentemente abandonada, era sombria. As ondas doces tornavam-se monstruosas e violentas na encosta, quebrando-as em um imenso silêncio "ssssshuaa". Ruas vazias tornavam-se a ficar movimentadas por pessoas curiosas e que recepcionariam os recém chegados de Porto Alegre, pois a barca estava a chegar. O sol surgia dentre as nuvens timidamente. Muitas jovens, bonitas e faceiras, esperavam com ansiedade a vinda de rapazes Porto Alegrenses que chegavam a todo momento de barca. Contanto, apenas uma se destacara para Ele, ela não parecia estar oferecendo-se, e sim muito distraída, tinha uma beleza natural, meiga, de cabelos castanhos e doces olhos verdes, tanto, que transbordava carisma. Ele notou que a moça estava acompanhada de seus pais, e por fim, percebeu seu sorriso.
Ele sentia-se encantado, seu coração batia em um ritmo acelerado, e sabia, que há muito tempo não sentia-se assim, de pernas bambas, fitando-a com o olhar, mesmo sem querer. Querendo, desejando aproximar-se, saber de sua vida e das coisas que ela gostava.
Ela sentia-se bem, distraída, com pensamentos e devaneios concentrados na beleza do rio, e no quentinho do sol, pois, era a formosura em pessoa, além de ser apaixonada pela vida em si. Era moça de princípios, e não se desatinava à procura de rapazotes, pois sabia que o amor não se procura, e sim, acontece naturalmente, e quase sempre acontece quando não se espera. Ela sabia que era preciso estar distraída. Além de bonita, era moça muito sabida.
A vitrola que antes fazia íiniim-ooh-íniin-ooon, agora tocava música. Então os olhares deles encontraram-se em uma sintonia perfeita e recíproca. Aquele tipo de olhar que nem mais de mil palavras podem explicar.
O tempo passara.
Idas e Vindas, olhares sinceros, e a vida tornava os encontros mais escassos e difíceis.
O tempo se encarregou de trazer João para conversar com um médico sobre a doença de seu tio, e ali conheceu Maria Jaci. Então conversaram, trocaram frases, e poesias subintendidas.
Quando estava em casa, do outro do rio, Ele pensava: É o jeito de sorrir com os olhos, de passar uma calma, e ainda assim, sabes me deixar inquieto, trêmulo e acelerado por dentro. É como se tivesse em mim uma válvula de escape que quando te sente por perto começa a pulsar. Mas o teu riso me acalma, me adoça. E eu sinto medo, guria. Sinto bobice dentro de mim.
Ela não parava de pensar: Eu gosto de ti, do jeito. Gosto do teu jeito, tenho uma vontade doida de ti abraçar. E ti sentir. O meu desejo era um abraço teu. E estranho é essa presença que fica quando tu vais, juro que queria entender, mas tu tens toda a minha admiração. Aquele rapaz atencioso. É daquelas pessoas que a gente sabe que que são mais humanas, que é gente consciente e forte. Que sabe das coisas. Tu ti tornaste importante pra mim guri.
A partir deste dia, o destino encaminhou-se de fazer ela encontrar ele e ele encontrar ela.
Ele era João Perla e Ela era Jaci Martins, uma história de 60 anos de amor.
A saudade dele é de saber que viveu feliz ao lado dela até o último instante, e ainda assim, doer.


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